documento de apoio Criado em 1971 por Eric Schopler e seus colaboradores, o Programa TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Related Communication Handicapped Children) é um programa de educação para crianças com autismo e problemas relacionados com a comunicação, e tem como principal objectivo ajudar as crianças com autismo ou com perturbações no espectro do autismo a crescer da melhor forma possível, de forma a atingir, na idade adulta, o máximo da autonomia. A filosofia deste programa centra-se nas áreas fortes habitualmente encontradas nas crianças com P.E.A. (processamento visual, memorização de rotinas e interesses especiais), sendo adaptado ás necessidades de cada criança. O aspecto mais saliente deste programa é a estrutura das intervenções e do meio ambiente. A sala é fisicamente estruturada para que a criança perceba mais facilmente o que é esperado dela. As próprias actividades são também organizadas no tempo e no espaço para dar à criança um sentimento de previsão e de sequência temporal. As actividades, inicialmente planeadas segundo a capacidade de atenção de cada criança, vão sendo trabalhadas por períodos que têm um princípio e um fim bem definidos. Ao mesmo tempo vão sendo alargados os períodos de trabalho e de disponibilidade de atenção até que a criança execute todas as tarefas que compõem o seu plano de trabalho. Segundo Schopler, para que uma sala esteja convenientemente estruturada de acordo com esta metodologia, é necessário: • A estruturação física do espaço; • A organização visual (ex: horário diário ou pistas visuais); • A gestão de problemas de comportamento; • A elaboração de um sistema de comunicação expressiva-receptiva; • Desenvolvimento de um plano de intervenção personalizado que permita aos educadores e pais avaliar os progressos da criança.
As 4 maiores componentes do ensino estruturado: Organização Física Refere-se à disposição física da sala ou espaço utilizado para ensinar, trabalhar, lazer ou realizar outro tipo de actividades. De acordo com esta organização física existem áreas delimitadas para actividades específicas, o que permite à criança identificar e relembrar os espaços onde as actividades têm lugar e relacioná-las entre si. A organização física auxilia os alunos com autismo a compreender e a funcionar melhor nos diversos ambientes que frequentam. As crianças com autismo têm dificuldades em distinguir acontecimentos diferentes: uma sala de aula claramente organizada auxilia nas actividades específicas e reforça os conceitos importantes. Ajuda também os alunos com autismo ou problemas similares de aprendizagem a focar a sua atenção nos aspectos mais importantes da sua tarefa. Habitualmente estas crianças distraem-se com sinais ou sons exteriores quebrando momentos de atenção: impossibilitar que estes sons ou sinais externos cheguem até à criança poderá ajudá-la a focar a sua atenção na tarefa que está a realizar. Por este motivo a distribuição das áreas de trabalho pela sala deverá ter em consideração este aspecto, tal como deverá ser utilizada ao mínimo a decoração perto das áreas de estudo. Estas últimas deverão localizar-se longe de janelas ou espelhos, e poderão ainda ser utilizadas estantes altas ou cortinas nas janelas de forma a evitar a dispersão. É também útil que as áreas de estudo compreendam estantes para que desta forma o material esteja acessível para utilização. Para algumas crianças, a mesa de trabalho virada para uma parede branca ajuda a eliminar factores de distracção e a focalizar a sua atenção na tarefa que está a desempenhar. Estrutura Física Não Visual Habitualmente é produtivo utilizar outras estruturas para facilitar a aprendizagem, dependendo da função desse espaço. Por exemplo: a localização da casa de banho é muito importante. O treino dos esfíncteres fica diminuído se existir uma distância muito grande entre a casa de banho e a sala de aula. Mesmo se as crianças forem independentes nas suas idas à casa de banho, o tempo útil da aula poderá ser utilizado de forma mais produtiva, ao invés de ocupar grande parte do tempo a levar e a trazer as crianças para e da casa de banho. Os espaços da sala de aula em que as crianças passam algum tempo de forma independente, como por exemplo o espaço do brincar ou do lazer, devem localizar-se longe de portas por onde a criança possa sair. Aspectos do Funcionamento O espaço apropriado e a estrutura da sala variam com a idade e com o nível de desenvolvimento das crianças. Para crianças em idade pré-escolar, as áreas pertinentes de aprendizagem incluem geralmente o espaço do brincar, trabalho individual ou independente, espaço de grupo, recreio e casa de banho. Para crianças em idade escolar, outras áreas similares às anteriores são utilizadas enfatizando as necessidades deste grupo etário. Estas incluem a área de leitura e autonomia (ex: higiene, vestuário, actividades de vida diária). Para adultos que habitem em lares residenciais as actividades são adequadas a cada área da casa (ex: cozinha, quarto), mas um suporte visual referente ao espaço respectivo poderá ser útil. Individualização As necessidades individuais de cada criança poderão ser colmatadas recorrendo a estruturas físicas. Por exemplo: marcar no chão o local da cadeira frente à secretária. Área de Transição A área de transição é o local onde todos os horários estão colocados. As crianças dirigem-se a esta área para saberem o que irão fazer a seguir, qual a actividade que se segue, facilitando-lhes a aceitação da mudança. As áreas de transição são uma forma concreta de introduzir, através de horários visuais, as várias alterações que podem ocorrer num dia de escola. Estas áreas em conjunto com a estrutura física ajudam a prevenir e reduzir os problemas de comportamento, a ansiedade e a agitação nas crianças e adultos com autismo. Horários Os horários ajudam as crianças a perceber e saber qual a actividade que irão realizar e quando a irão realizar. Os horários mostram a cada aluno quais as actividades a realizar e em que sequência devem ser realizadas. Ajudam também a antecipar e a prever as actividades. Horários visuais claros ajudam os alunos com autismo e problemas similares por várias razões: 1. Minimizam os problemas de memória e atenção; 2. Reduzem os habituais problemas relacionados com a noção de tempo e organização; 3. Compensam as dificuldades ao nível da linguagem receptiva (que causam dificuldades em perceber e seguir uma instrução); 4. Incentivam a independência e autonomia no aluno; 5. Motivam o aluno a realizar uma actividade, tornando possível que, recorrendo à memória visual, o aluno tenha presente que “primeiro o trabalho, depois o brincar”.
Quando os alunos aprendem a utilizar os horários visuais, aprendem também mais facilmente a seguir instruções de forma mais independente. Estas são algumas das competências necessárias para mais tarde, em adultos, poderem funcionar em comunidade e nas mais diversas áreas. Tipos de Horários Numa sala TEACCH são utilizados, normalmente, dois tipos de horários em simultâneo: o horário individual do aluno e o horário da sala. No horário da sala são colocadas, todas as actividades que serão realizadas naquele dia, assim como todas as pausas (almoço, recreio, lanche). Este horário é mais ou menos consistente ao longo da semana e é ajustada sempre que se prevêem actividades fora da sala e da escola: visitas de estudo, actividades na comunidade, etc. É colocado num local de fácil acesso e onde todos o possam ver facilmente. Estes horários podem ser de leitura (ex: “LEITURA”) ou com imagens (ex: a imagem de um livro); a ordem ou sequência das actividades pode ser de cima para baixo ou da esquerda para a direita. O horário individual ajuda os alunos a saber o que devem fazer em cada actividade ou área de trabalho. O horário pode ser composto por palavra ou imagem. O aluno retira a palavra ou imagem correspondente, leva-a para o local onde se realizará a actividade e coloca a imagem ou palavra num envelope ou caixa após a conclusão desta. Dirige-se novamente ao seu horário e retira a imagem da próxima actividade. Plano de Trabalho Indica ao aluno o que deve fazer na área de trabalho independente, sem apoio / supervisão do professor. O plano de trabalho ajuda o aluno a perceber o que é esperado dele em determinada tarefa; a organizar o seu trabalho e a completar as suas tarefas. Permitem ao aluno saber: 1. As tarefas que deve realizar; 2. A quantidade de tarefas a realizar; 3. Quando as tarefas terminaram.
Aspectos do Funcionamento Os planos de trabalho podem ser utilizados em crianças com diferentes níveis de desenvolvimento funcional, dependendo do uso progressivo da complexidade que apresentam. Em níveis mais baixos de funcionamento os objectos são utilizados directamente; os níveis seguintes envolvem códigos de cores, imagens, números e palavras. Individualização Cada um dos planos de trabalho pode ser individualizado de acordo com as necessidades educativas e capacidades de comunicação de cada criança. Um factor importante é o professor saber quais as necessidades de aprendizagem de cada criança e como encaixá-las num plano de trabalho. Este tipo de plano de trabalho poderá também ser adaptado a adultos que habitem em lares residenciais. Organização das Tarefas A organização das tarefas é a quarta maior componente do ensino estruturado. O plano de trabalho proporciona à criança visualizar o tipo de actividades que irá realizar, quantas actividades tem que realizar, as que já realizou ou as que ainda estão por realizar e o grau de sucesso esperado pelo seu desempenho. A organização das caixas de trabalho proporciona à criança pistas visuais acerca da posição que cada uma ocupa no seu plano de trabalho. As pistas visuais são úteis para estas crianças porque habitualmente oferecem, de uma forma facilitada, instruções que facilmente compreendem. Elas clarificam os pedidos de tarefas, sequencias, conceitos relevantes e outras pistas importantes. As pistas visuais são ferramentas importantes no ensino de crianças com autismo, e uma importante vantagem da sua utilização apropriada é que funcionam como mecanismos que ensinam as crianças a olhar para instruções. Também as pistas visuais podem ser adaptadas a diferentes níveis de desenvolvimento funcional, e personalizadas em relação às necessidades de cada criança. À semelhança do plano de trabalho também elas podem conter objectos, imagens, cores diversificadas, números ou palavras. Individualização Variações personalizadas nas pistas visuais dependem da capacidade e dos objectivos do curriculum de cada criança. As pistas visuais habitualmente são apresentadas da esquerda para a direita, mas podem também ser utilizadas de cima para baixo indicado uma sequência a seguir. Rotinas Construtivas As 4 componentes atrás abordadas estimulam uma utilização produtiva da adesão das crianças com autismo a rotinas. A estrutura física proporciona rotinas relativas às funções e actividades; os horários proporcionam as rotinas relativas a uma sequência e/ou alterações de actividades; os planos de trabalho ajudam à criação de hábitos de trabalho, actividades escolares, assim como a aprendizagem de como ir da esquerda para a direita, ou de cima para baixo (noções muito importantes para a aprendizagem da escrita, por ex.); ajudam também na noção de “primeiro trabalhar, a seguir brincar”. O estabelecimento destas rotinas é útil não só no meio escolar ou em casa, mas também no meio laboral e em outros ambientes. Outros conceitos do ensino estruturado 1. Instrução As instruções podem ser verbais ou não verbais, e explicam ao aluno como realizar a tarefa. A forma de comunicar do professor deve ter em conta cada aluno em particular e a forma mais clara de o fazer para que possa ser entendido. Nas instruções verbais deve utilizar-se o mínimo de linguagem possível (tipo telegrama) para que a mensagem possa ser compreendida na totalidade e executada. As instruções podem ser acompanhadas de gestos e com apoio a pistas visuais adequadas. 2. Ajudas A ajuda pode ser útil, especialmente em tarefas novas. As crianças aprendem mais facilmente quando completam a tarefa com exactidão pois este facto reforça, não só o processo de aprendizagem, mas também a sua auto-confiança. Diversos tipos de ajuda podem ser utilizadas dependendo do nível de comunicação. As ajudas físicas são utilizadas para conduzir as acções das crianças no sentido de completarem uma tarefa. Utilizar instruções verbais acompanhadas de gestos, facilitarão à criança a compreensão daquela instrução. Antes de utilizar qualquer tipo de ajuda é necessário obter a atenção da criança. Isto não quer dizer que o contacto visual tenha que ser obrigatoriamente estabelecido. Muitas das crianças e jovens com autismo demonstram a sua atenção através da postura e orientação corporal, por uma resposta verbal ou parando de fazer as outras actividades. As ajudas podem também ser gestuais, como apontar. A demonstração é também outro tipo de ajuda: mostrar como se faz determinada actividade / tarefa. Os educadores devem ser sistemáticos nas ajudas que fornecem, e esta deve ser clara para ser também eficaz. 3. Reforços As crianças e jovens com autismo nem sempre estão motivados para a realização de determinada tarefa. Os educadores devem tentar descobrir algo que os possa motivar: pode ser comida, um brinquedo, actividades preferidas, etc., uma vez que a maioria destas crianças não se sente motivada com o simples facto de realizar uma tarefa completa e bem. O reforço deve ser dado imediatamente após o comportamento desejado acontecer. A sua frequência (número de vezes) será estipulada pelo educador tendo em conta cada criança: algumas crianças necessitam sempre de reforço, e outras necessitam dele de forma intermitente (apenas de vez em quando). Schopler, E; Mesibov, G. (1995) - "Structured Teaching in the TEACCH System" em Learning and Cognition in Autism, Plenum Press. New York and London
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