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Símbolos, Arte e Autismo

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Muitas das pessoas que se dedicam ao autismo acabam por ter uma forma de pensar parecida com a da vencedora do primeiro prémio em pintura desta Exposição (Créacción desde el silencio, Burgos, 1998). Os seus quadros são bonitos, fascinantes e muito originais, com uma grande capacidade para analisar e sintonizar cores, e ao mesmo tempo não existem espaços vazios, e tece uma espécie de teia de aranha em torno das personagens no espaço completo do quadro. Isto é uma boa imagem daquilo que se passa com as pessoas que se dedicam ao autismo. Uma pessoa não pode deixar de pensar no tema do autismo. Existem duas razões entrelaçadas que convertem o autismo numa espécie de tóxico.

O autismo cria muitos mistérios e perguntas àqueles que se dedicam ao seu estudo. Segundo Chomsky, podemos distinguir dois tipos de mistério: aqueles a que o homem pode ou poderá dar solução, e aqueles para os quais a mente humana não tem solução, porque a mente humana, pela sua própria natureza, sendo o resultado de uma evolução contingente, não está preparada para resolver. O autismo coloca em primeiro lugar o mistério fascinante da sua origem, sobre a qual frequentemente aparecem informações derivadas das investigações científicas no campo da sua origem possivelmente genética.

Outro mistério é a manifestação artística nas pessoas com autismo. Como é que aparece a arte nas pessoas com autismo? Não é, por acaso, incompatível a expressão artística com os modelos de explicação que temos do autismo? Até que ponto podemos explicar, com aquilo que sabemos da mente do autista, que será capaz de fazer arte? Não tenho a menor dúvida de que as pessoas com autismo são capazes de fazer arte, a prova disso encontramo-la fora desta sala.

A segunda razão pela qual o autismo acaba por se converter num tóxico, é muito simples de entender: o autismo estabelece problemas muito reais e concretos, as experiências compartilhadas das famílias, no caso dos profissionais as experiências das crianças e das famílias, a experiência de um problema que pede urgentemente intervenção, apoio, e urgência de não se repetir. Situações reais como as de famílias que se vêm numa situação de abandono, de solidão, de falta de recursos e com um problema que não podem resolver. Existem urgências práticas e reais que acabam por nos fazer pensar todo o dia nelas.

A terceira razão é que o autismo coloca-nos questões, interpela-nos de forma radical, mais radical do que qualquer outro tipo de deficiência, porque implica um desvio radical do biótipo padrão do desenvolvimento.

Estamos habituados a ver o desenvolvimento dos nossos meninos com desenvolvimentos "ditos normais" e não o questionamos porque o consideramos o estado natural das coisas. Contudo, a pessoa com autismo coloca-nos um travão e faz-nos pensar num modelo de desenvolvimento que é muito diferente daquele que consideramos natural. Faz-nos questionar sobre o que é o natural, sobre o que é a natureza humana e no que é a arte?

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No processo normal de produção de arte, a cultura impede, limita e condiciona as formas aceitáveis e também as restringe. As obras de arte indiscutíveis aqui expostas têm uma autenticidade, uma intuição da cor e às vezes da forma que não está mediatizada. Não estão filtradas por regras culturais que condicionam e restringem as possibilidades da expressão artística.

Mostra-nos porque estas crianças que têm em concreto duas características principais podem produzir obras de arte: um problema gravíssimo com a simbolização, um gravíssimo problema de comunicação. Estes problemas pareciam em princípio impedir a possibilidade de expressão artística. Na Universidade Autónoma (Madrid) estamos a trabalhar num modelo que acredito que pode ser interessante para compreender certos aspectos relacionados com a actividade artística.

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Poderiam dar-se muitos exemplos bem conhecidos de arte autista: sobre as pinturas de Van Gogh, sobre Stephen, o célebre jovem inglês que faz desenhos representativos de casas que viu de relance e conserva perfeitamente na cabeça; Manolo, o autista que eu trato, de quem tenho o desenho de uma nota de 500 pesetas que é uma reprodução exacta. Mas nesta exposição, estas pinturas não são meras reproduções, em algumas há componentes abstractos bastante consideráveis. Não são meras fotografias. Algumas delas são reproduções mas noutras há diferentes factores que jogam. O que são? Uma capacidade de análise do espaço e da cor que introduzem uma genuína intuição do espaço e da cor livre de padrões culturais. Por vezes estes trabalhos artísticos são originais e o mais importante de tudo: pertencem a um artista que não sente tão claramente que tem potencial de  interpretação. É possível que aconteça que ele possa cumprir completamente a tarefa de expressar as emoções que a arte implica. Por isso é arte quando a arte é uma terapia contínua, de modo a exprimir as emoções por uma via simbólica. Talvez a única forma de responder às questões e paradoxos que estou a colocar é admitirmos a existência de sistemas simbólicos que não são a linguagem propriamente dita. São outros símbolos e, se estamos a falar da arte a partir  do silêncio, talvez sejam mesmo os símbolos do silêncio. 

Angel Rivière, Universidade Autonoma de Madrid, Director Técnico da APNA, Madrid.

Excertos da Conferência de abertura da Exposição "Creacción desde el silencio", Burgos, 1999.



 

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