Czech :: English :: Español :: Hungarian :: Português

Menu

Parceiros
Análise de Projecto
Objectivos
Conceitos Pedagógicos
Resultados do Projecto
Módulos
Metodologia
Plano de Actividades
Avaliação
Divulgação

Entrar

Por favor autentique-se para aceder à area privada do Website

Utilizador:


Palavra passe:


 
Copiar ou Não

documento de apoio

Nadia, filha de emigrantes ucranianos, nasceu em Nottingham, Inglaterra, em Outubro de 1967. A segunda de três filhos, a princípio parecia desenvolver-se normalmente mas ao fim do primeiro ano de vida deixou de dizer as poucas palavras que sabia e depois disso mostrou ser cada vez mais autista. Aos três anos, o seu perfil de desenvolvimento era já marcadamente deficiente: desenvolvimento motor lento; não compreendia a linguagem dos outros nem era capaz de comunicar os seus próprios pensamentos através dos canais habituais de linguagem, gestos ou música. De facto, sublinhando as suas preocupantes deficiências no domínio simbólico, não brincava utilizando o jogo simbólico.

Com a idade de três anos e meio, Nadia, até aí pouco activa, mostrou de repente uma extraordinária capacidade para desenhar. Utilizando a mão esquerda, começou a desenhar animais, especialmente cavalos, de modo que mais lembrava um adolescente talentoso ou um artista adulto do que uma criança, ainda mais uma criança com graves défices cognitivos e emocionais. Contrariando directamente todas as anteriores descrições das origens da simbolização gráfica, saltou aparentemente as etapas das garatujas, do estádio esquemático e da figura humana. Ao desenhar figuras também não seguiu os usuais esquemas compostos de simples figuras geométricas juntas e justapostas. Na verdade, aparentemente sem qualquer necessidade de prática, os seus desenhos mostravam uma fidelidade notável aos contornos do objecto desenhado; ainda por cima e de novo contra qualquer descrição do desenvolvimento da expressão gráfica, os desenhos de Nadia exibiam domínio da perspectiva, escorço e outras estratégias dos artistas, geralmente adquiridas depois de anos de paciente domínio e evolução das “naturais” capacidades de desenho.

foto_001.jpg

O modo como Nadia desenhava era tão espantoso como o que ela desenhava. Não desenhava a partir de um modelo. Enquanto que os seus desenhos eram muitas vezes inspirados em imagens que tinha visto uma vez, na maior parte dos casos não tinham sido vistas recentemente. Em vez disso, usando essas imagens meramente como pontos de partida, ela variava as suas versões quase à sua vontade, experimentando diversas formas até chegar a um produto final que lhe satisfizesse os seus exactos padrões. Muitas vezes os seus desenhos finais pareciam ser compostos de vários trabalhos vistos antes. Mais impressionantemente Nadia não parecia necessitar de desenhar pormenores de qualquer tipo ou mesmo de justapor características umas às outras: era capaz de colocar um pormenor num local do papel, outro noutro local e juntá-los numa posterior ocasião completamente segura que as partes se ajustariam. Na verdade, ela nem mesmo  precisava de olhar para as linhas que ia desenhando; por exemplo, ao desenhar um cavalo, desenhava primeiro o pescoço, depois punha as orelhas de modo a estarem na correcta relação espacial antes do contorno da cabeça ser desenhado. A sua abordagem do conjunto era também diferente da concebida pelas crianças dotadas: enquanto as crianças da sua idade repetem compulsivamente o mesmo esquema e ficam perturbadas se lhes pedem que alterem  a usual sequência das linhas, Nadia desenhava muito depressa e podia voltar, mesmo depois de uma interrupção considerável, ao exacto ponto onde tinha parado de desenhar.

Ela (Nadia) era verdadeiramente como um sofisticado artista adulto pois não se via como ia ficar o desenho depois de pronto. Ela desenhava uma parte aqui e outra ali, de facto as partes do desenho pareciam vir de todos os lados. A seguir colocava as ligações que eram necessárias para os juntar.

Por ser tão extraordinária a actuação de Nadia – Lorna Selfe, uma das suas terapeutas chamava-lhe "inacreditável" – e ir contra todos os relatos tanto de crianças comuns como de deficientes, qualquer tentativa para explicar o seu dom, deve necessariamente ser especulativa. Esta criança parecia ter ligado milagrosamente a expressividade do jardim de infância com o domínio do realismo da idade escolar. As suas terapeutas especulavam com a ideia de que tendo ela uma perturbação cerebral, necessitava de outro meio de expressão e a natureza, na sua infinita sabedoria, tinha-a encaminhado para o domínio gráfico. Contudo, na minha opinião, esta explicação não me parece nem necessária nem suficiente. Certamente não há nenhuma ligação entre danos cerebrais e capacidades elevadas – apesar de tudo as crianças com danos cerebrais fazem desenhos tão primitivos como o são as suas actuações noutros domínios. De certeza que certas formas anómalas de danos cerebrais que impediram Nadia de usar os meios mais usuais de comunicação podem possivelmente tê-la conduzido para a expressão gráfica  e de facto, outros jovens com autismo também se encaminharam para as artes. Mesmo assim esta explicação não dá a mais pequena indicação sobre o porquê de Nadia ter produzido tais desenhos precoces de um modo tão virtuoso.

Algumas pistas vêem da actuação de Nadia noutras tarefas. Aspectos do seu comportamento sugerem que ela tinha imaginação eidética, a capacidade de ver claramente no seu pensamento cenas que já tinha visto no mundo real.  Ela completou os testes mais rigorosos de imaginação eidética reconhecendo os conteúdos de uma imagem composta que só poderia ser construída justapondo no seu pensamento duas imagens apresentadas em tempos diferentes. Nadia actuou melhor nas tarefas em que tinha que reconhecer formas de um puzzle do que noutras que lhe foram pedidas.  Era muito competente a emparelhar figuras com as suas silhuetas e quando se tapava um desenho que estava a copiar, era capaz de completar a cópia sem ver.  Como prova evidente de ser guiada por uma imagem, muitas vezes Nadia continuava a desenhar fora do limite do papel como se fosse compelida pela forma que estava a tentar realizar; e diferente de muitos jovens desenhadores que corrigem automaticamente o aumento exagerado do tamanho dos objectos, projectando-os directamente, Nadia desenhava esses objectos aumentados em dimensões apuradas pela retina.

Em contraste nítido com este conjunto de características imagéticas, Nadia era muito fraca no reconhecimento de desenhos como entidades significativas. Quando lhe pediram para formar classes a partir de desenhos ou categorizar pinturas na base do significado do que era representado, geralmente falhou. Aparentemente, enquanto Nadia podia reter na memória o aspecto puramente visual de objectos e conjuntos, era geralmente incapaz de os categorizar. Como foi mostrado que a imagem mental tende a desaparecer quando se pede ao indivíduo eidético para classificar ou rotular o objecto, a incapacidade de classificar de Nadia (uma consequência dos seus danos cerebrais) fica como evidência sugestiva que, mesmo sem ter a imagem eidética, ela tinha capacidades poderosas de retenção.

Contudo, mesmo se os danos cerebrais parecem explicação insuficiente para a actuação de Nadia, também a interpretação eidética é insuficiente. Apesar de tudo, há vários indivíduos eidéticos (talvez 10% da população infantil), e geralmente não desenham de forma especialmente dotada. Ver é um pré-requisito para desenhar mas de forma nenhuma pode a maioria das pessoas (eidéticas ou não), sem esforço de motricidade fina, padronizar essas formas que ficaram tão vividamente impressas na sua imagem mental.

foto_004.jpg

Howard Gardner (1980) - Artful Scribbles. New York: Basic Books.



 

Development by:
SIMBIOSE

SOCRATES Programme - Adult Education
Transnational Cooperation Project SIDE by SIDE
Application 109911-CP-1-2003-1-PT-GRUNDTVIG-G1

APPDA-Lisboa
Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo

Fatal error: Allowed memory size of 33554432 bytes exhausted (tried to allocate 388200384 bytes) in Unknown on line 0