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Desenhos II - Stephen Wiltshire

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Aqueles de nós que dizem "eu gostava de saber desenhar” esquecem-se sempre que houve tempos em que sabiam desenhar e desenhavam – inconscientemente e com prazer mesmo que não fosse muito bem. Na verdade, todas as crianças gostam de desenhar. Acham mais divertido do que escrever e é o meio mais rápido de enviarem uma mensagem. (Não admira que tantos artistas de Goethe a Picasso tenham invejado aquele olhar inocente). Pode ser, contudo, um talento fugitivo que morre depressa de negligência ou é morto por interesses competitivos e pressões educativas. Felizmente, de vez em quando, um foguetão de jovem talento explode e continua a deitar-nos as suas centelhas.

Stephen Wiltshire - que nasceu com dificuldades severas de fala – é um desses foguetões. Um talento natural para o desenho foi acarinhado pelos seus professores e alimentado até que se tornou não tanto o medium como a própria mensagem – uma forma de comunicação apaixonada e pessoal.

Diferente da maioria das crianças que tendem a desenhar menos a partir da observação directa do que a partir de símbolos e imagens vistos em segunda mão, Stephen Wiltshire desenha exactamente o que vê – nem mais nem menos. Fica em frente do objecto – geralmente um edifício – durante cerca de 15 minutos, parecendo mais guardá-lo do que observá-lo. Mais tarde desenha-o, rapidamente, com confiança e com uma acuidade tanto mais genuína quanto é feita inteiramente de memória e sem tomar notas. Ele desenha sem perder nenhum pormenor - nada.
A única inadequação consiste em que o desenho do objecto aparece como visto num espelho. O seu tema preferido é sempre a arquitectura e quanto mais complicado e pormenorizado o edifício, melhor. Ele trata os edifícios mais como um cenário de padrões do que como espaços confinados mas o seu sentido de perspectiva é firme e o Albert Wall é sem dúvida redondo.

The_Royal_Albert_Hall_Stephen_Wiltshire.jpg

Vê-lo desenhar é uma experiência extraordinária. Parece caprichoso o sítio por onde começa o desenho e para ele pouco importante. Pode  começar no topo do papel, no meio ou no extremo, pela linha da base, no telhado ou numa janela. Desde a primeira marca, o lápis move-se tão rápida e seguramente como uma máquina de costura – a linha sai da ponta do lápis como se fosse um bordado. De repente acaba. Fica satisfeito e vai vaguear olhando pela janela.
É uma história comovente e até agora triunfante. A vida de uma criança diferente - solitária porque não falava nos seus tenros anos – foi transformada pelo modo como foi despoletada a sua tendência artística e desenvolvida com a ajuda carinhosa e paciente da família e dos professores. Ele desenha agora com crescente confiança e aguda auto-crítica. Procura problemas mais difíceis e novos desafios apesar de continuar cada vez mais fascinado por edifícios do que por outros temas.

Agora que aprendeu a ler e a escrever será que esta extraordinária visão e talento se desenvolve ou desaparecerá? Nem mesmo os especialistas o saberão dizer. Neste momento continua a enriquecer a sua vida para além das medidas. Conseguir resultados é sempre uma alegria e Stephen consegue transmitir essa alegria para todos nós. Feliz Stephen, podemos dizer? Talvez – mas certamente felizes nós.

Royal_Crescent__Bath_Stephen_Wiltshire.jpg

DRAWINGS - STEPHEN WILTSHIRE, 1987, London; J. M. Dent & Sons

Sir Hugh Casson é um arquitecto famoso.

 

 

 



 

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