documento de apoio FOREWORD by Lorraine Cole A grande maioria de todos nós aprende a falar. A linguagem oral torna possível que demos a conhecer às outras pessoas os nossos sentimentos e as nossas necessidades. Com ela expomos o nosso pensamento e podemos usá-la para brincar ou para formular as perguntas que nos facultam a compreensão das nossas experiências. Por via de regra, estamos tão à-vontade com ela que temos como dado adquirido que os nossos filhos virão a adquirir a mesma faculdade. Mas algumas crianças, por razões que ainda não compreendemos inteiramente, não o fazem e permanecem sem fala, perdidas numa sociedade que se apoia na linguagem falada. O Stephen foi uma dessas crianças. Quando começou a frequentar a escola, aos quatro anos de idade, era totalmente introvertido e quase mudo. Parecia que não se dava conta das outras pessoas, não estabelecia contacto visual e deambulava sem destino, dando corridas súbitas até outras salas, onde ficava a olhar atentamente para quadros que o fascinavam, voltando logo para a sala de aula com a velocidade de um raio. Não mostrava interesse por qualquer das actividades que tinham lugar à sua volta na sala de aula. Cooperava de forma mecânica no trabalho individual com a professora mas, logo que ela saía de perto, o Stephen ou recomeçava o seu passeio solitário ou procurava papel e lápis para rabiscar durante longos períodos, completamente absorto. Por isso, muitos dos desenhos estão feitos em bocados de papel. Os professores que trabalham com estas crianças difíceis são peritos em fazer uso do que quer que seja que a criança deixe entrever e era patente qual o único interesse do Stephen. A pouco e pouco, o Stephen foi estimulado a desenhar e a usar os desenhos como meio para comunicar alguma coisa do seu mundo interior. A terapeuta da fala e a professora trabalharam em estreita colaboração para ajudar o Stephen a dominar as palavras de que necessitava e foram recompensadas quando, um dia, ele disse “Papel?”. Apercebemo-nos então de que tinha começado a compreender o quanto a linguagem falada pode ser útil e tomámos medidas para que fossem rapidamente satisfeitos todos os pedidos que ele fizesse falando. O Stephen começou a formar o seu vocabulário, palavra a palavra, levando bastante tempo. Era encorajado a falar sobre os desenhos que fazia e começou a tirar prazer do seu talento crescente. Os desenhos melhoraram rapidamente e fez experiências com uma vasta gama de técnicas e de materiais, surpreendendo-nos um dia com uma série de caricaturas marotas e fiéis de membros do pessoal, rindo abertamente do efeito que elas produziam. Sabemos agora que, não obstante o desinteresse aparente, de facto nos observava muito atentamente. Os acontecimentos começaram a precipitar-se. O Stephen aprendeu a ler, tornou-se capaz de utilizar a biblioteca e a sua escolha recaiu em livros sobre arquitectura e viagens. Participou em sessões de teatro e demonstrou ser um excelente mimo. A sua representação de um homem zangado num restaurante foi tão cheia de vivacidade e engraçada que só quando vimos o vídeo que havíamos filmado é que nos apercebemos de que não tinha usado palavras verdadeiras, mas apenas uma vasta série de ruídos de zanga. Foi então que nos demos conta da sua habilidade para imitar sons. De novo nos surpreendeu quando umas crianças fizeram barulho da parte de fora da sala de terapia da fala, onde o Stephen estava a trabalhar. De repente, pôs-se de pé e disse “Deixe isso comigo”, saiu da sala, gritou às crianças malcomportadas “Não façam barulho!”, voltou, sentou-se e disse numa entoação lúgubre “Crianças patéticas”. O Stephen e a família sofreram muito quando o Sr. Wiltshire morreu num acidente de automóvel. O Stephen, que tinha 3 anos nessa altura e que era muito chegado ao pai, ficou muito chocado e perturbado. Como se tinha tornado capaz de comunicar através dos desenhos e de alguma linguagem, a equipa liderada pelo psiquiatra achou que a psicoterapia podia ajudá-lo. Desde então, esta tem tido na sua vida um papel constante e significativo. Quando pela primeira vez se pôs a hipótese da participação no programa QED da BBCTV, ficámos preocupados, não fosse uma tal exposição ser de qualquer modo nociva para o Stephen ou a sua família. Tranquilizaram-nos a sensibilidade com que tudo foi tratado e o prazer que a mãe teve perante o reconhecimento do admirável talento do seu filho. O próprio Stephen estava muito interessado. Levámo-lo a ver alguns edifícios que ainda não tinha desenhado e pedimos-lhe que o fizesse de memória, tal como lhe iriam pedir que executasse perante as câmaras. Queríamos ter a certeza de que ele perceberia o que lhe viriam a solicitar. À medida que lhe explicávamos, ele assentia pausadamente e dizia “Sim, sim”. Escolhemos para o programa a estação de St. Pancreas, porque é um edifício muito “à Stephen”, elaborado, minucioso e incrivelmente complicado. Mesmo o tipo de desafio ao gosto do Stephen. 
No próprio dia estávamos todos ansiosos, mas o Stephen não o estava, manifestamente. Evidenciava um impressionante sentido da ocasião e, tendo-se atribuído o papel de guia turístico da equipa de filmagem, enquanto se dirigiam para a estação chamou-lhes a atenção para edifícios e também, em grande parte do caminho, para modelos de automóveis. Almoçou calmamente como de costume, saiu para brincar e depois, sossegadamente, fez o seu lindo desenho com uma autoconfiança completa, chegando até a pôr os ponteiros do relógio exactamente na posição em que estavam quando os havíamos visto, às onze e vinte. Quando o programa foi para o ar em Fevereiro de 1987, o Stephen estava excitado e custou-lhe a esperar até se ver a si próprio. Observou atentamente e depois murmurou de si para si “Está bom”. Algumas crianças com dificuldades semelhantes às do Stephen perdem o interesse em desenhar quando se lhe abrem outras formas de comunicação. O Stephen, porém, continua a desenhar e a buscar por si próprio a resolução de problemas do foro artístico. É crítico em relação ao seu trabalho e rejeita os desenhos que não alcançam os padrões de qualidade que estabeleceu, dizendo “Nada bom”. Actualmente estuda com aplicação fotografias aéreas de Londres, parecendo extraordinariamente concentrado na resolução de problemas de perspectiva, ainda que às vezes esteja rodeado de crianças a tocar instrumentos musicais. O Stephen, pequeno, curvado e aplicado, permanece completamente absorvido pelo estudo do seu livro. Embora a comunicação continue a apresentar-lhe muitas dificuldades, pelo que às vezes a usa com relutância, continua a evoluir, a mostrar o seu sentido de humor e a estabelecer contacto real com as pessoas. O prazer que lhe proporciona o desenho continua a enriquecer não só a vida dele mas também a dos outros e o próprio Stephen confirmou tudo isto quando conseguiu dizer “Estou contente porque gostam dos meus desenhos”. O Stephen está quase a ir para a escola secundária. Todos, tanto as crianças quanto os pais, ficam nervosos nesta altura, mas ele parece muito calmo e determinado quanto a este assunto. Quando visitou a escola foi direito à biblioteca, escolheu os livros com o cuidado habitual e estudou-os atentamente, procurando boas imagens de edifícios. Diz que gostou da escola e que está contente por ir para lá. Ainda não dispensa ajuda especial, mas a nova escola vai proporcionar-lhe um leque diferente de experiências e uma mais ampla escolha de amigos. Hoje em dia ele tem tal auto domínio que sentimos que tudo vai correr bem. E, é claro, vamos seguir o seu percurso com vivo interesse. Iremos com certeza ter saudades do Stephen, pois ele tem estado connosco já há bastante tempo e vamos sentir a falta da sua personalidade dócil, do seu humor e da sua dignidade singular; porém, tal como aos bons pais, compete à escola ajudar cada criança a ser capaz de encontrar o seu lugar neste mundo e a conseguir reger-se sem nós, e isso é o que o Stephen está prestes a fazer.

DRAWINGS - STEPHEN WILTSHIRE, 1987, London; J. M. Dent & Sons Lorraine Cole era a Directora da ILEA escola que o Stephen frequentou de Janeiro de 1979 a Julho de 1987.
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