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Talento Artístico

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Dave Spicer, de quem se fala muito neste livro, é um poeta e ensaísta talentoso e contudo o seu talento não foi notado nem encorajado enquanto criança. Ele recorda-se que, mesmo sendo as suas notas mais altas nas secções verbais, foi encaminhado para estudar engenharia na faculdade. Dave só mais tarde tomou consciência da sua criatividade verbal quando um poema “saltou de dentro de si”.
Pedi ao Dave para pensar nas questões adiante expostas e partilhar connosco as suas ideias. Muito obrigada por se dispor a  ponderar este tema e escrever esta secção  para pais e professores.

As ideias deste capítulo

  • Porque pensa que a expressão artística é importante?
  • Como podem os pais encorajar o talento do seu filho?
  • Tem algumas ideias sobre a pessoa com autismo e talento?
  • Qual é a sua experiência pessoal  para desenvolver o seu talento?

Porque pensa que a expressão artística é importante?

A expressão artística pode servir um determinado número de finalidades da pessoa com autismo. Pode dar prazer físico, devido aos aspectos sensório motores da actividade, tais como sentir ou cheirar os materiais que são utilizados, as suas cores e os sons feitos por eles.

Pode dar prazer intelectual: os padrões, o ritmo e a harmonia, ao serem externamente manifestados trazem um maior sentido de ordem e equilíbrio aos pensamentos da pessoa.

Podem servir para praticar a auto-expressão, na medida em que os pensamentos e sentimentos de cada um tomam forma de modo a afectarem o mundo exterior o que é útil visto que o próprio conceito do mundo exterior pode ser desconhecido para a pessoa.
Pode ser extremamente útil em relação aos sentimentos, pode ser um modo de lidar com eles e talvez de os “domesticar” de modo a não se sobreporem à experiência.

Pode ser um meio de comunicação. A actividade pode servir como uma espécie de ponte que faz a ligação entre o estado interior com o mundo exterior.
Algumas pessoas com autismo podem não descobrir que é mesmo possível isto acontecer e assim podem nunca esperar ser compreendidos. Outros podem esperar que toda a gente conheça automaticamente os seus pensamentos e assim não compreender que os pensamentos têm que ser comunicados.
Usar a expressão artística como um modo de praticar comunicação pode ajudar a encontrar o termo médio entre estes extremos.

Pode ser um modo de interagir com a sociedade e contribuir para isso. Os pontos de vista daqueles que não estão integrados podem fornecer informação e perspectiva que não estão tão facilmente disponíveis dentro do sistema. Os sistemas funcionam muito melhor com feedback e as impressões das pessoas com autismo, expressas através da arte, podem contribuir para tal. Um dos resultados deste feedback pode ser uma compreensão mais vasta do termo “sociedade” de modo a que os que não estão integrados sejam reconhecidos como fazendo parte dela. Por sua vez isto pode trazer uma maior riqueza através da diversidade.

Como podem os pais encorajar o talento artístico dos seus filhos?

Um ponto de partida pode ser o reconhecimento do que está a acontecer. Alguém disse que a vida pode ser vista como uma tela na qual as pessoas “pintam” ao viver. Vendo isto como um guia, é natural que já estejam presentes exemplos de expressão criativa. Os interesses especiais da criança podem oferecer situações para usar o talento artístico. Quais são os diferentes aspectos em que o objecto (ou os objectos) de interesse da criança pode ser representado? Quais as diferentes situações em que esses objectos podem ser representados? Pode haver histórias ou canções acerca deles? E que tal “documentários” ou anúncios?

Tem algumas ideias sobre as pessoas com autismo e talento?

O grau de satisfação que uma pessoa com autismo encontra numa actividade pode não ser evidente através do seu comportamento. Uma intensa concentração pode parecer afastamento e sentimentos fortes de prazer podem estar escondidos dentro de si e por isso não poderem ser utilizados. Por essa razão, pode levar um tempo considerável para sabermos aquilo em que a criança está interessada e do que gosta.
Se tiver um leque de escolhas disponível, algumas podem ser ignoradas por muito tempo e depois serem escolhidas com grande entusiasmo. Por outro lado, uma actividade favorita durante muito tempo pode ser de repente abandonada sem qualquer explicação.

Enquanto um pai pode querer saber muito bem porque tal acontece, a criança pode ser incapaz de comunicar ou mesmo compreender as razões. Pode ser muito frustrante ter um filho que actue e fale com precisão, explicando as suas preferências e acções em pormenor, ser incapaz de responder a uma questão directa sobre os outros.

A área da expressão artística não parece ser inteiramente racional o que pode causar dificuldades àqueles que procuram a compreensão lógica das coisas. Desenhos, canções, poemas e outras coisas parecidas parecem sair “do nada” por nenhuma razão aparente. Pode ser inquietante para a pessoa que os cria, talvez causando uma marca simultânea de alegria e apreensão. Por outro lado, se a criação é a resposta a sentimentos fortes como frustração ou raiva, os assuntos de apreciação intelectual podem ser completamente postos de lado porque o processo se torna quase visceral.

Qual é a sua experiência pessoal para desenvolver o seu talento?

A minha própria experiência com a expressão criadora é a de energia procurando um lugar. Esta energia é intensificada ao usufruir da expressão criativa dos outros. Eu não sinto esta energia a ser criada mas sinto verdadeiramente que as pessoas podem procurar ser conduzidas por ela. Os meus desafios nesta área não implicam tentar tornar-me mais criativo mas verdadeiramente remover as barreiras que impedem o que eu tenho dentro de mim de me exprimir mais livremente.
Estou grato de não ter que compreender completamente o processo da expressão criativa para ser capaz de o usar. Como pessoa autista, há alguns aspectos da vida  que, mesmo que escapem à minha completa compreensão, posso participar neles e gostar.


Contributo de Dave Spicer, 1999.



 

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