documento de apoio O Autismo é actualmente definido na base do comportamento – não há testes do sangue ou de cromossomas para o autismo. Uma das dificuldades com o diagnóstico comportamental é que o comportamento é extremamente variável dependendo da idade, capacidades, personalidade e ambiente. No caso do autismo, vemos um espectro de apresentações, desde a silenciosa e distante criança com autismo, ao verboso e ultra-amigável adulto com Síndroma de Asperger. Muitas pessoas no espectro do autismo têm diminuição intelectual e atraso no desenvolvimento geral, mas alguns são extremamente inteligentes. Dentro de todo este espectro podemos observar certas características centrais em domínios sociais e não sociais que parecem ser universais e formar o critério de diagnóstico chave: diminuições qualitativas no desenvolvimento social e comunicativo, acompanhadas de actividades e interesses repetitivos e restritos. Existem pelos menos dois puzzles para desafio dos que querem entender o espectro do autismo. Primeiro, porque se haviam de juntar estas dificuldades centrais? Segundo, porque se manifestam estas dificuldades de forma tão variada? Uma resposta parcimoniosa à primeira questão seria propor um défice cognitivo subjacente individual que resulta na tríade de diminuições (em capacidade social, comunicação, e flexibilidade). No entanto, até à data não foi proposta nenhuma teoria psicológica que possa explicar todos estes aspectos satisfatoriamente. Em vez disso, diferentes partes da tríade parecem ser bem explicadas por défices cognitivos subjacentes diferentes. Presentemente três teorias cognitivas tentam explicar estas características centrais. Cada uma delas capta alguns mas não todos os aspectos do autismo. Uma teoria explica as dificuldades de comunicação e sociais (“mindblindness”). Uma segunda teoria explica acções repetitivas e dificuldades em gerir as exigências da adaptação diária (“executive disfunction”). Uma terceira teoria explica uma rara percepção do detalhe e o “savant syndrome” (“weak central coherence”). As dificuldades sociais e de comunicação parecem ser considerados como défices da chamada “teoria da mente” ou “mentalização”. Muitas pessoas com autismo têm dificuldades em “pôr-se no lugar do outro”, ou reconhecer o que outra pessoa pode pensar ou sentir. Isto explica porque têm dificuldade em comunicar normalmente, podem omitir aos pais e aos professores informação importante que eles não conhecessem, não reconhecem piadas ou sarcasmo, e tomam as coisas literalmente. Isto explica porque lhes é difícil manter amizades recíprocas, porque é que guardar segredos ou mentir é tipicamente misterioso para pessoas com autismo, e porque é que eles podem não aceitar sugestões ou podem ser dolorosamente fechados. No entanto, a avaliação da teoria da mente não explica satisfatoriamente o comportamento repetitivo no autismo. Uma teoria psicológica actualmente popular que tenta recorrer aos défices não sociais da tríade, postula “disfunção executiva” no autismo. A função executiva é um termo “umbrella” para uma gama de processos de controle de alto nível necessitamos para agir com flexibilidade em situações novas ou complexas. Estas incluem a capacidade de planear, de mudar estratégias, de conduzir o nosso comportamento e corrigi-lo para alcançar uma finalidade, reter em mente e manipular informação, e inibir um comportamento que já não é útil. As pessoas com autismo, como aquelas que adquiriram danos nos “lobos” frontais do cérebro têm dificuldades em algumas destas funções de controle. Na vida diária, estes problemas mostram-se na incapacidade do indivíduo responder flexivelmente face à mudança, e antever para planear e antecipar tais mudanças. As avaliações da função executiva e teoria da mente do autismo põem défices no centro do comportamento autista. No entanto, as perturbações do espectro autista são também caracterizadas por forças surpreendentes e valores. Estes incluem a alta incidência de capacidades em matemática, música ou desenho, a facilidade em completar puzzles e outros testes espaço/visuais, memória para informação aparentemente desligada, e capacidade de notar pequenas mudanças. Estes valores têm sido considerados resultado de um estilo cognitivo característico de pessoas com autismo; fraca coerência central. A maioria das pessoas (não autistas) mostram uma tendência a processar a entrada de informação no contexto do significado – vendo e lembrando o enquadramento geral sem contar com os detalhes. As pessoas com autismo, por outro lado, parecem mostrar uma propensão de processamento para os pormenores, e muitas vezes perdem o sentido geral. Considera-se que este tipo de processamento explica uma gama de representação superior em pessoas com autismo, também visto em pais de crianças com autismo. Os efeitos directos de “teoria da mente”, disfunção executiva e fraca coerência têm sido alvo de muita atenção da parte dos investigadores. No entanto, também importante, mas largamente inexplorados, são os efeitos do desenvolvimento ou “downsteam”, destes aspectos da cognição autística. Talvez descobrindo estes efeitos do desenvolvimento possamos entender melhor porque é que a manifestação do autismo pode ser tão variada e complexa? A teoria da mente (e os seus percursores tal como a falta da atenção conjunta) comprometerá significativamente a aprendizagem socialmente mediada (como por exemplo, através da observação e imitação). Isto, em combinação com as deficiências na atribuição de intenções, perturbarão seriamente a aprendizagem das palavras que é tipicamente um processo comunicativo-social no qual a criança segue o olhar do interlocutor e infere a intenção do significado. O atraso na linguagem ou a sua ausência podem reflectir os efeitos da teoria da mente no desenvolvimento. O insucesso na aprendizagem através dos processos sociais pode, nalguns casos, ser suficiente para explicar o baixo nível de inteligência nos testes. Num estudo, encontrámos resultados de um rápido processamento básico de informação (não social) mesmo em crianças com autismo cuja medição da inteligência era baixa. Ainda mais, a incapacidade de reflectir o seu próprio estado mental pode prejudicar o desenvolvimento das capacidades executivas tais como o planeamento e o controle inibitório. As implicações deste estudo são que os caminhos alternativos para a aprendizagem (não social) necessitam de ser fomentados nas crianças com autismo para minimizar os efeitos destrutivos da teoria da mente. No caso da disfunção executiva, a incapacidade de mudar de actividades ou estados mentais tem um impacto evidente na aprendizagem em sala de aula. Os problemas executivos e a falta de flexibilidade dificultam a adaptação e encorajam a dependência nas actividades de rotina. É contudo encorajador que os estudos tenham mostrado que algumas pessoas com autismo demonstram melhor actuação em tarefas de mudança de actividades quando elas são apresentadas no computador do que quando são apresentadas pelo investigador de forma tradicional. Isto pode sugerir que a utilização de sistemas de recompensa não social e a eliminação de pedidos de processamento externo vindos de ambientes sociais, podem ajudar as pessoas com autismo a maximizar as suas capacidades executivas deficitárias. O impacto a longo termo da fraca coerência ainda não foi estudado. Contudo, é possível que uma criança que, por exemplo, repare em certos pormenores que outros não reparem, se diferencie cada vez mais dos seus colegas em termos de interesses. A memorização de informação e conhecimentos que é construída será naturalmente muito diferente numa mente que foca mais os pormenores. Temple Grandin, uma pessoa autista muito competente, fala da sua incapacidade de falar sobre “um gato”, tendo em vez disso que pensar em “cada” gato que ela conheceu. Se as pessoas com autismo memorizam exemplos específicos, mais do que generalizam protótipos, este facto conduzirá a grandes diferenças de compreensão e aprendizagem. Pode muito bem ser que, por exemplo, não se possa assumir que uma pessoa com autismo ( mesmo fluente na leitura) está a ler compreendendo o significado, se a leitura dos pormenores pode conduzir ao processamento das palavras da página em lista. Então, a fraca coerência central pode criar sistemas de memória idiossincráticos e formar preferências que tendam a divergir cada vez mais das outras pessoas. Estas teorias implicam que as crianças com autismo caminhem num percurso de desenvolvimento diferente e que a sua aprendizagem possa beneficiar ao ser reencaminhada. Daí que os métodos de ensino necessitam de ser diferentes dos que são usados para as crianças com desenvolvimento normal e devem ser adaptados a cada indivíduo. Pensar sobre os efeitos no desenvolvimento dos pontos cognitivos fortes e das dificuldades do autismo pode fornecer uma base sólida para a melhoria dos programas educativos. Uta Frith, Institute of Cognitive Neuroscience, University College London and Francesca Happé, MRC Social Genetic and Developmental Psychiatry Centre, Institute of Psychiatry, King's College, London Proceedings - Livro de Actas - 7th International Autism Europe Congress Lisboa 2003
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