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Respostas às Questões

1. O que é o autismo?
O autismo é uma deficiência grave que afecta a comunicação e a interacção com as outras pessoas mas também com o mundo. O grau de autismo varia segundo um eixo que vai de severo a ligeiro, se bem que o efeito seja sempre grave.

2. É uma deficiência ou uma doença?
O termo doença implica os conceitos de tratamento e recuperação. O termo deficiência é definido como um impacto da alteração e/ou incapacidade no individuo ou na comunidade abrangente implicada. Sempre que este implica problemas de relação, limitação de oportunidades de vida, com a consequente rotura da integração social na vida normal, então uma pessoa diminuída ou incapaz é uma pessoa deficiente.
Sendo o autismo causado por uma disfunção do sistema nervoso central, ele é uma deficiência e não uma doença, embora porém, haja pessoas com autismo que apresentem doenças como por exemplo a epilepsia.

3. Quais são as causas do autismo?
As causas não são bem conhecidas. Contudo, é claro que se olharmos para as mais recentes estimativas da prevalência (predomínio) de todas as formas de Perturbações no Espectro do Autismo, temos percentagens de cerca de 60 para 10.000 que aparecem de forma consistente nas mais recentes sondagens. Esta percentagem é três vezes mais elevada do que a de 20 para 10.000 relatada por Wing e Gould, a meio dos anos 70, no estudo de Camberwell. É obvio que as mudanças nos critérios de diagnóstico, o alargamento do conceito de autismo, o aumento da consciencialização dos profissionais de que o autismo pode aparecer em crianças com inteligência normal, as novas categorias de Perturbação de Asperger e de PDD NOS, tudo isto contribuiu para o aumento da percentagem. Ainda por cima, muitos profissionais e o público estão agora conscientes da Perturbação no Espectro do Autismo que facilita a identificação destas crianças nos estudos. Não se sabe se, a acrescer a estes factores há ou não um real aumento da incidência da perturbação. Não existem dados epidemiológicos de confiança que forneçam estimativas temporais para serem utilizadas de modo a responder eficazmente a esta questão. A investigação não provou as queixas sobre a associação com determinados factores de risco tais como a imunização à vacina tríplice (sarampo, rubéola e papeira) ou o conteúdo de mercúrio das vacinas.

1. Podem os pais causar o autismo?
Se não se estiver a falar de genética, a resposta é não. O mito dos pais frios (especialmente as mães) mostrou não ter base científica. As suas raízes estão na analogia que Bruno Bettleheim fez com as crianças que ele viu nos campos de concentração e que ficavam traumatizadas com os terríveis espectáculos que presenciavam e por isso demonstravam muitas vezes afastamento social, ansiedade, depressão, comportamentos estereotipados e falta de capacidade de comunicação.
Quando observou as crianças com autismo na América, Bettelheim tirou uma conclusão precipitada, atribuindo os seus comportamentos aos resultados de um trauma semelhante.
Não há qualquer prova de que os pais das crianças com autismo rejeitem mais do que os outros os seus filhos, apesar de eles não lhes darem muitas vezes resposta às suas tentativas de comunicação. Também nem todas as crianças que sofrem maus-tratos se tornam autistas. O que pode acontecer é que as crianças muito traumatizadas apresentem por vezes comportamentos que conduzam inicialmente a um falso diagnóstico de autismo (Rutter, 1999). Estas crianças respondem positivamente a carinho e amor e mostram que de facto não tinham autismo, apesar de poderem sofrer de outras dificuldades emocionais e comportamentais como resultado das experiências vividas.

2. Pode o autismo ser curado?
É difícil falar sobre uma criança com autismo que se cura. O autismo é uma perturbação congénita (as crianças nascem tipicamente com ele). A sua deficiência significa que a sua interacção com o mundo social é muito diferente das experiências das crianças tipicamente desenvolvidas. Os nossos cérebros desenvolvem-se, até certo ponto, como um repositório dessas experiências. É portanto, muito pouco provável que uma pessoa possa desfazer esse desenvolvimento. Relatos de curas de crianças com autismo não são normalmente corroborados e referem-se a indivíduos que progrediram muito. Mesmo assim, esses indivíduos continuam a ter desafios muito significativos durante a vida. Contudo, tendo dito que as curas são pouco prováveis no autismo, não significa que os indivíduos nessa condição não possam fazer grandes progressos. De facto, a grande maioria dos tratamentos sérios têm como objectivo maximizar o potencial da criança e torná-la mais competente na sua vida diária.   

3. É o autismo uma concha dentro da qual se encontra uma pessoa normal à espera de sair?
É este o sentimento que muitas vezes os profissionais têm ao trabalhar com indivíduos com autismo, especialmente quando eles são mais novos, mas não é um bom caminho para abordar o autismo. O autismo é uma grave perturbação da comunicação, socialização e flexibilidade de pensamento e comportamento que implica um modo diferente de processar a informação e de ver o mundo. As pessoas com autismo podem fazer grandes progressos na compreensão do mundo tal como nós o vemos e na compreensão de nós próprios mas é devido ao esforço que fazem e que nem sempre percebem porque o devem fazer (Sinclair, 1992) ou pensam que é automaticamente melhor ser não autista (Grandin citada por Sacks em 1995). Temple Grandin, uma jovem autista muito competente, citada por Sacks em 1995, disse que o autismo é outra maneira de ser uma pessoa. Não quer tanto dizer que uma pessoa com autismo seja anormal mas sim que o nosso conceito do que é normal pode necessitar de ser alargado para incluir estes modos de ser fascinantes e diferentes.

4. Existe algum teste genético que possa confirmar que o autismo tem origem genética?
Não há presentemente testes genéticos que possam confirmar o diagnóstico de autismo que é inteiramente baseado na avaliação do desenvolvimento e na evidência de anomalias qualitativas no desenvolvimento da criança. Apesar de haver uma forte base genética no autismo, não foram ainda identificados os genes implicados e não se podem providenciar testes genéticas directos para a acriança e para os pais que clarifiquem os mecanismos genéticos e o risco genético de futuras gravidezes. Numa pequena percentagem de casos identificaram-se determinadas condições genéticas que são às vezes encontradas nos testes genéticos de rotina. Estas condições são o sindroma de X frágil, a esclerose tuberosa e várias anomalias cromossómicas que têm sido particularmente localizadas no cromossoma 15. Do mesmo modo, estas anomalias não explicam mais do que 10% de crianças com autismo e portanto, em 90% dos casos, uma testagem genética profunda com os métodos actuais conduz a um resultado negativo. Quando tiverem sido identificados os genes implicados, ser-se-á capaz de os procurar nas crianças afectadas e em suas famílias o que pudera acontecer nos próximos anos.

1. Qual é o risco genético de aparecer autismo nos filhos dos irmãos com autismo?
A estimativa do risco dos filhos dos irmãos das pessoas com autismo terem perturbações do espectro do autismo é actualmente de 5-8%. Se um irmão de uma criança com autismo não for autista e não tiver tido anomalias no seu desenvolvimento, é muito provável que o risco genético nos seus filhos seja baixo e semelhante ao da população em geral. Contudo, se esse irmão tiver tido problemas de desenvolvimento que se pensa pertencerem ao fenótipo mais vasto do autismo ou se esse irmão se casar com alguém com problemas semelhantes do desenvolvimento no seu quadro genético, o risco pode elevar-se mas é presentemente impossível de quantificar precisamente.

5. Qual é a relação entre deficiência mental e autismo?
Indivíduo que são muito isolados socialmente, desmotivados e que têm pouca capacidade comunicativa (e linguagem), é provável que também mostrem um nível significativo de deficiência intelectual, pelo menos no domínio verbal. Alguns indivíduos podem demonstrar severos desafios (na interacção social, linguagem e comunicação, estereotipias comportamentais, etc.) e terem mais alta inteligência não-verbal. Apesar da regra, se quisermos generalizar, é que quanto maior atraso mental um indivíduo tiver, mais natural é que não fale, que possa ter algumas situações clínicas (por exemplo, presença de epilepsia) e que mostre estereotipias tais como movimentos motores repetitivos e extrema rigidez (por exemplo, resistir às mais pequenas mudanças no seu ambiente).      

1. A completa ausência de comunicação verbal no autismo é sempre acompanhada por deficiência intelectual severa (atraso mental)?
Se uma pessoa tem completa ausência de comunicação verbal, é muito provável que tenha uma significativa deficiência intelectual.

2. A deficiência mental manifesta-se no autismo regressivo associado ao autismo ou é uma consequência do autismo?
Existe uma grande controvérsia sobre qual é a percentagem de crianças com autismo que podem apresentar regressão (as percentagens variam entre 5% a 25%). Segundo, não há até à data, uma forte prova do que pode causar o autismo em primeiro lugar e muito menos do que pode causar a regressão. A partir daqui, as duas causas devem estar muito provavelmente relacionadas. Relatos muito divulgados através dos media sobre possíveis factores causais (tais como as vacinas) não receberam validação empírica até à data. Desta forma, e por não se conhecer o que causa realmente a regressão no autismo, não se pode verdadeiramente responder a esta questão.

3. Até que ponto as perturbações sensoriais (ex.: cegueira ou surdez) e da comunicação interferem com o funcionamento cognitivo?
Certamente que as crianças com estes desafios terão maiores dificuldades de aprendizagem. Apesar de poder não ser necessariamente esse caso e dependerá então de uma quantidade de factores incluindo serem ou não esses factores congénitos (de nascença) e muitas outras coisas. No caso das deficiências de comunicação, uma criança sem linguagem terá mais problemas de funcionamento cognitivo (dado que a inteligência é verbal e não verbal) porque a linguagem é a principal ferramenta de aprendizagem e socialização. Em relação aos indivíduos que podem ter boa linguagem mas dificuldades na comunicação social, normalmente este caso segue a par de formas específicas de deficiência cognitiva, particularmente nas áreas do raciocínio não literal e nalgumas formas de conceptualização, imaginação e capacidade de gerar novas estratégias para resolver problemas novos…   


    

Questões e respostas baseadas em:
- 7º Congresso Internacional Autisme Europe - Lisboa 2003 – EYPD 2003 PROJECT ANSWERS TO QUESTIONS – Sábado, 15 de Novembro – Sessão 14.30 / 17.00
- Rita Jordan (1999) - Autistic Spectrum Disorders – An introductory Handbook for Practitioners; Great Britain: Cromwell Press Ltd

        

 

 



 

Development by:
SIMBIOSE

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APPDA-Lisboa
Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo

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